O Ardent transforma a rosa em uma demonstração de poder

O Ardent transforma a rosa em uma demonstração de poder

Tenho hoje aproximadamente 500 perfumes de nicho. Depois de um número desses, colocar qualquer fragrância entre as 20 ou 30 melhores da coleção deixa de ser um elogio casual. O Ardent está ali. Talvez eu mude duas ou três posições dependendo do dia, mas está. A qualidade dos ingredientes e o nível de acabamento justificam esse lugar.

Quando o assunto é rosa, tenho ainda menos dúvidas: essa é uma das melhores interpretações da nota que já encontrei na perfumaria.

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O Peacock Throne tem uma rosa extraordinária. O Oud Satin Mood também. São perfumes que inevitavelmente aparecem quando penso nas melhores rosas da minha coleção, e o Ardent consegue sentar nessa mesma mesa. Com uma diferença importante: entre todos eles, é provavelmente o mais fácil de usar. Existe muita qualidade, complexidade e presença, só que nada parece ter sido feito para dificultar a experiência de quem veste o perfume.

Criado por Christian Provenzano, ele trabalha duas impressões bastante distintas da rosa. A primeira vem de uma rosa turca intensa, expansiva e levemente suja, com um aspecto quase indólico. É uma rosa que deixa rastro, quilométrica mesmo, e não aceita ficar em segundo plano.

Depois aparece uma rosa mais clara, branca e orvalhada, que associo à rosa-centifólia. Não posso afirmar que essa seja exatamente a matéria-prima utilizada, mas é o cheiro que encontro: uma rosa leve, limpa, confortável e com aquela sensação úmida de pétalas recém-molhadas. Ela me faz lembrar um pouco o Delina e o Eladaria, embora o resultado final do Ardent seja completamente próprio.

Essas duas rosas não aparecem organizadas em blocos, como se uma saísse para a outra entrar. Elas convivem. Em certos momentos, a rosa turca cresce e deixa o perfume mais imponente; em outros, a parte branca, almiscarada e orvalhada traz calma. Acho muito bonita essa mistura porque a fragrância tem poder, mas não cansa. Tem opulência, mas continua confortável.

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Já na primeira borrifada aparece um açafrão de excelente qualidade. A Boadicea sabe trabalhar essa nota de um jeito especial, como também acontece no Dragon. Aqui, ela esquenta a rosa e dá textura ao floral, sem tentar tomar o perfume para si.

Há ainda uma camada muito almiscarada, limpa e aveludada. Às vezes, a imagem que me vem é a de um lençol branco perfeitamente limpo, macio, quase felpudo. O jasmim e o Hedione ajudam a criar esse espaço mais luminoso e arejado ao redor da rosa. Sem eles, talvez tudo ficasse mais fechado, mais pesado do que deveria.

A cera de abelha também tem um papel interessante. Não pense em um mel grosso, açucarado ou enjoativo, porque não é isso. Ela traz uma doçura floral equilibrada, parecida com aquele mel de flor de laranjeira, além de uma textura levemente cerosa. Está presente, é perceptível, mas não leva o perfume para um caminho gourmand.

Em alguns momentos, a rosa parece até borbulhar. É uma sensação viva, úmida, como se ainda existissem pequenas gotas de água sobre as pétalas. Só que a rosa turca continua ali, firme, impedindo que tudo fique delicado ou romântico demais.

O patchouli é muito importante nesse perfume. Ele aparece úmido, canforado, terroso e amadeirado, trazendo uma sombra para o brilho das flores. É uma das notas mais elegantes da perfumaria quando bem trabalhada, e a Boadicea costuma tratá-la muito bem. O Blue Sapphire Supercharged é outro exemplo disso.

No Ardent, o patchouli sustenta a rosa. Também aproxima o cheiro de uma perfumaria floral mais clássica, principalmente daquela escola dos anos 1990, quando vários perfumes tinham essa combinação rica de flores e patchouli. Não considero um cheiro antigo em sentido negativo. É mais uma lembrança daquela época em que os florais eram encorpados, muito bem acabados e carregavam uma ideia quase imediata de status.

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Com a evolução, o perfume fica mais ambarado e abaunilhado. A baunilha adoça sem exagero, o âmbar aquece e traz cremosidade, e o oud está ali com muita qualidade, mas sem dominar. Não há aquela escuridão medicinal ou animalizada que costuma afastar algumas pessoas dos perfumes com oud. Ele ajuda a dar profundidade, só isso.

E a rosa continua. Essa é uma das coisas de que mais gosto aqui. O perfume muda, vai ficando mais úmido, amadeirado, ambarado e cremoso, mas não abandona sua ideia principal. A saída é mais floral, especiada e orvalhada; depois o patchouli cresce, e a base vai ficando mais quente, abaunilhada. A rosa acompanha tudo do começo ao fim.

Gosto de pensar nele como um time que joga para o seu melhor jogador. O açafrão, as flores brancas, a cera de abelha, o patchouli, o oud, o âmbar e a baunilha têm personalidade própria, mas entendem qual é a estrela. Tudo trabalha para que a rosa apareça da melhor maneira possível.

Quando eu era criança, costumava visitar a casa da minha tia Dag, uma mulher que sempre gostou muito de perfumes. Ela já usava fragrâncias importadas numa época em que aquilo estava completamente distante da minha realidade. A mistura de rosa com patchouli fazia parte do cheiro dela, e sentir o Ardent me leva de volta para aquela casa quase imediatamente.

Minha tia também representava o acesso a um mundo que eu ainda não conhecia. Ela viajava, trazia presentes de fora e me apresentava, mesmo sem intenção, a pequenas coisas que eu desejava poder conquistar no futuro. Enquanto eu só fui conhecer os Estados Unidos depois dos 30 anos, ela já viajava para lá quando eu ainda era criança e, às vezes, voltava com algum presente da Disney ou alguma novidade que não existia no meu cotidiano.

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Por isso, essa associação com riqueza não nasceu agora e não é uma ideia abstrata que inventei para descrever o perfume. Certos cheiros já significavam luxo e possibilidade para mim muito antes de eu entender qualquer coisa de perfumaria.

Anos depois, quando comecei a trabalhar com perfumes aos 19, encontrei novamente esse caminho olfativo em grandes florais clássicos. Foi como reconhecer alguma coisa sem saber exatamente de onde vinha. Hoje eu sei.

O Ardent me transporta para essas duas fases da vida: a infância na casa da minha tia e o início do meu trabalho com perfumaria. Talvez por isso eu tenha uma ligação tão forte com ele. Ainda assim, mesmo retirando toda a minha memória afetiva da análise, o cheiro continua falando claramente sobre riqueza, sofisticação e altíssimo luxo.

É um “cheiro de rico” sem vulgaridade. Não existe aquela necessidade de entrar no ambiente gritando que custa caro. A qualidade aparece na textura da rosa, na maneira como o patchouli se encaixa, no conforto dos almíscares e na forma como tudo evolui na pele.

Também considero o Ardent uma das traduções mais literais que já encontrei da palavra “compartilhado”. Um homem pode usá-lo sem sentir que está vestindo um perfume feminino. Uma mulher pode fazer o mesmo sem a impressão de estar usando algo excessivamente masculino. Ele não precisa de couro pesado, pinho ou madeiras agressivas para demonstrar força, mas também passa longe daquele floral delicado, meigo e juvenil.

Em um homem, penso em alguém de smoking, seguro, bem-sucedido, perfeitamente confortável dentro de um ambiente sofisticado. Uma imagem meio James Bond, meio Tony Stark. Em uma mulher, não consigo imaginar uma figura tímida ou delicada. Vejo uma mulher poderosa, elegante, dona da própria presença. O ponto é principalmente a postura.

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Se eu tivesse que escolher uma ocasião capaz de resumir esse perfume, seria um baile de gala. Ele combina naturalmente com eventos formais, celebrações sofisticadas, jantares importantes e compromissos noturnos em que a maneira como você se apresenta faz parte da experiência. Existe sensualidade, claro, mas é uma sedução adulta, de muito requinte.

Apesar de toda essa opulência, ele não é difícil de usar. Isso me surpreende até hoje. A rosa não pesa na pele, e a parte limpa, almiscarada e confortável abre possibilidades que talvez não existissem em um floral mais escuro. Dá até vontade de usá-lo como assinatura. Para quem procura uma identidade olfativa diferente, exclusiva e facilmente reconhecível, faz bastante sentido.

A performance acompanha o tamanho do cheiro. São 15 a 16 horas de fixação, com projeção alta durante aproximadamente 3 a 4 horas. Ele deixa rastro, domina o ambiente e continua perceptível durante praticamente todo o dia. É uma bomba, mas uma bomba muito bem acabada. A potência não atropela a elegância.

Meu frasco pertence a uma apresentação mais antiga, mas já senti a versão atual e encontrei algo em torno de 98% de semelhança entre elas. Pode haver uma pequena diferença de fórmula, porém nada que descaracterize o perfume ou faça a qualidade despencar.

Entre as grandes rosas que tenho, essa é a mais fácil de usar. Posso reconhecer tudo o que o Peacock Throne e o Oud Satin Mood fazem de extraordinário, mas, quando penso em usabilidade, continuo preferindo o Ardent. Ele é complexo sem me cansar, imponente sem ficar grosseiro e floral sem cair em uma delicadeza previsível.

É uma das melhores rosas da minha coleção e, de coração, um dos melhores perfumes de nicho que tenho. A rosa é a estrela, todos sabem disso, e o restante do perfume trabalha para que ela brilhe do primeiro minuto até o fim. É exatamente assim que deveria ser.

Para garantir a aplicação correta do perfume, é importante não só aplicar da forma certa, mas também aproveitar melhor cada nuance da fragrância, permitindo que ela evolua na pele e deixe uma impressão duradoura. Além disso, cada fragrância é única. Por isso, experimentar diferentes opções — especialmente perfumes importados — pode te ajudar a encontrar a que mais combina com você. Assim, escolher o perfume masculino ideal pode transformar sua presença.

Por fim, obrigado por acompanhar esta resenha. Espero que ela te ajude a descobrir fragrâncias que combinem com o seu estilo e marquem presença no seu dia a dia. Até a próxima!

Foto de Luis Jordão

Luis Jordão

Luis Jordão, de 33 anos, é hoje um dos maiores influenciadores e criadores de conteúdos digital do mundo com especialização em perfumaria.

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Luis Jordão, de 33 anos, é hoje um dos maiores influenciadores e criadores de conteúdos digital do mundo com especialização em perfumaria.

Além disto, Luis Jordão, como é mais conhecido, é também formado em Publicidade e Propaganda, com alguns cursos voltados para a área da perfumaria.

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