Conversei com Cláudia Stenger, que trabalha há 33 anos no Grupo Boticário e participou diretamente da criação do Malbec. Hoje, ela atua na área de inovação olfativa, principalmente com fragrâncias masculinas, ajudando a empresa a pensar nos perfumes que serão lançados no futuro.
Sempre considerei o Malbec um perfume único. Não conheço nenhuma fragrância importada ou de nicho que tenha exatamente o mesmo cheiro. Existem perfumes parecidos em alguns aspectos, mas nenhum consegue reproduzir sua identidade tão marcante.
A história começou em 2003, depois de uma viagem de Miguel Krigsner, fundador do Boticário, ao Chile. Ao voltar, ele procurou Cláudia e entregou uma missão muito clara: ela teria um ano para estudar o vinho, conhecer suas facetas e transformá-las em uma fragrância. O projeto reuniu Cláudia, César Veiga, o perfumista Napoleão Bastos e profissionais de várias áreas da empresa. Também participaram um enólogo e um especialista em aromas, que ajudaram a encontrar pontos de ligação entre o universo do vinho e a perfumaria.

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A equipe passou a estudar todo o processo de produção do vinho. O objetivo era entender quais cheiros poderiam ser levados para um perfume e como fazer isso sem criar apenas uma fragrância com cheiro literal de bebida.
A inspiração de Miguel surgiu no Chile, mas parte da pesquisa técnica foi realizada na Argentina. Em 2003, a equipe acompanhou a produção do vinho Malbec e utilizou a tecnologia Headspace para capturar os aromas presentes durante a maceração. Esse cheiro foi reproduzido e passou a fazer parte da identidade da fragrância.
Outra grande diferença estava no álcool utilizado. Em vez do álcool comum da perfumaria brasileira, a equipe trabalhou com álcool vínico, produzido a partir da uva. Esse álcool foi colocado em barris de carvalho, nos quais ganhou características frutadas e amadeiradas antes de ser usado no perfume.
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Para colocar a ideia em prática, o Boticário precisou levar os barris para dentro da fábrica e adaptar parte de sua produção. O processo foi patenteado e se tornou uma das principais assinaturas de Malbec. Ele continua sendo utilizado em toda a linha, inclusive no Malbec Eau de Parfum, que estava sendo lançado quando conversei com Cláudia.
Ela fez uma observação importante sobre a patente: nenhuma proteção desse tipo dura para sempre. O maior diferencial está no conhecimento adquirido pela empresa e no domínio de um processo que vem sendo aperfeiçoado há mais de duas décadas.
Além da ligação com o vinho, a equipe tinha uma imagem clara do homem que usaria o perfume. Ele deveria ser moderno, conectado, confiante, viril e atraente. Confiança e poder de atração estavam entre as ideias mais importantes do projeto.
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Na época, a perfumaria masculina era dominada por fragrâncias frescas, amadeirados leves e perfumes com cheiro de barbearia, lavanda, pinho e loção pós-barba. O Boticário queria seguir por outro caminho e criar um amadeirado sensual, algo que ainda não era comum no mercado brasileiro.

O desafio era combinar frescor e densidade dentro do mesmo perfume. Ele precisava ser fácil de usar, mas também marcante, sensual e diferente de tudo o que o consumidor encontrava naquele momento.
Napoleão Bastos gostou do projeto desde o começo. Primeiro, criou o que Cláudia chama de “espinha dorsal” da fragrância. Depois, foi acrescentando novas facetas e ajustando a composição até chegar ao resultado desejado.
Muitas versões foram testadas durante o desenvolvimento. Segundo Cláudia, a fórmula escolhida provocava uma reação muito parecida em todas as pessoas que a experimentavam: elas se apaixonavam pelo perfume. Mesmo antes do lançamento, havia uma confiança muito grande no produto.
Ainda assim, o risco era alto. Por ser tão diferente, Malbec poderia se transformar em um enorme sucesso ou fracassar justamente por não se parecer com aquilo que o público já conhecia. A equipe decidiu apostar na primeira possibilidade.
O projeto exigiu mudanças na fábrica, uma embalagem exclusiva e o envolvimento de profissionais do marketing, da pesquisa, da engenharia, da produção e de várias outras áreas. Para Cláudia, o resultado não veio apenas de uma boa fórmula, mas da combinação entre tecnologia, qualidade, eficiência, paixão e um time que acreditava na mesma ideia.

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Quando foi lançado, em 2004, o perfume encontrou um cenário muito diferente do atual. Não existiam Instagram nem a estrutura de venda direta que o Boticário possui hoje. A campanha aconteceu principalmente na televisão e em revistas, inclusive publicações voltadas ao público feminino.
Antes da apresentação completa do perfume, a empresa também divulgou teasers para despertar a curiosidade do público. A estratégia funcionou, e a resposta foi imediata.
De acordo com Cláudia, o Malbec vendeu aproximadamente três vezes mais do que a empresa havia previsto. A procura foi tão grande que quase consumiu o estoque mundial de uma das matérias-primas usadas na fórmula. Em vez de diminuir depois do lançamento, as vendas continuaram crescendo mês após mês.
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O perfume ocupou um espaço que ainda estava vazio. Enquanto boa parte do mercado masculino apostava em fragrâncias frescas e tradicionais, Malbec apresentou uma proposta mais densa, sensual e marcante. Ele também ajudou a criar uma nova relação entre o homem brasileiro e a perfumaria.
Cláudia não gosta quando é chamada de lenda e faz questão de dividir os méritos com todos os profissionais envolvidos. Para ela, o perfume nasceu da união de pessoas que gostavam do que faziam e estavam dispostas a entregar mais do que o trabalho exigia.
Essa foi a parte da conversa que mais me marcou. Também acredito que existe uma diferença muito grande entre fazer algo apenas por obrigação e trabalhar com amor pelo que está sendo criado. O Malbec não se tornou um ícone por acaso: antes de chegar ao público, ele já era uma ideia na qual toda uma equipe acreditava.


